Vinte anos separam dois futebóis quase irreconhecíveis entre si. Em 2006, a Itália erguia a taça do Mundial na Alemanha, o Barcelona conquistava a Liga dos Campeões em Paris e um jovem Messi, com cerca de 19 anos, ainda dava os primeiros passos rumo à hegemonia que construiria ao lado de Cristiano Ronaldo. Duas décadas depois, uma comparação divulgada pelo jornal espanhol "As" expõe o tamanho da transformação econômica do esporte - e o preço que o torcedor comum vem pagando por ela.
Transferências multiplicadas muito além da inflação
Em 2006, a saída de Andriy Shevchenko do Milan rumo ao Chelsea, por cerca de 45 milhões de euros, foi tratada como um marco do mercado europeu e recorde para o clube londrino. Hoje, aquele valor corrigido pela inflação equivaleria a aproximadamente 69 milhões de euros - ainda assim, menos da metade dos 145 milhões de euros que o Manchester City pagou ao Chelsea pela contratação de Enzo Fernández, segundo os números apresentados na comparação. O salto não se explica apenas pela correção monetária: reflete uma mudança estrutural nos parâmetros de investimento dos grandes clubes, que transformaram em rotina negociações que antes seriam tratadas como excepcionais.
A camisa do clube pesa mais no bolso do torcedor
O impacto também chegou às lojas oficiais. Em 2006, o uniforme do Atlético de Madrid custava cerca de 70 euros - valor que, corrigido, equivaleria hoje a aproximadamente 107 euros. Mas o preço médio da camisa principal de um clube da primeira divisão espanhola em 2026 é de 88,52 euros, com Barcelona e Atlético de Madrid chegando a 110 euros e o Real Madrid a 100 euros. A diferença se aprofunda nas versões usadas pelos próprios jogadores em campo, vendidas por cerca de 150 euros antes da personalização - e que, com nome, número e escudos adicionais, facilmente ultrapassam os 200 euros. Enquanto isso, o gasto médio anual do torcedor espanhol em produtos de futebol, que era de 87 euros em 2006, hoje não cobre nem o preço de uma única camisa principal.
Ingressos: o fosso entre o torcedor comum e os grandes jogos
Nenhum indicador ilustra melhor a mudança do que o preço dos ingressos. Em fevereiro de 2006, ver Athletic Bilbao e Real Madrid em San Mamés custava entre 30 e 80 euros, e mesmo um clássico histórico como Barcelona x Real Madrid, que levou cerca de 100 mil pessoas ao Camp Nou, tinha ingressos acessíveis fora do mercado de revenda. Duas décadas depois, o Barcelona x Real Madrid marcado para outubro de 2026 teve ingressos para sócios variando entre 476 e 999 euros, com opções VIP chegando a 5.500 euros. No clássico de maio daquele ano, esgotados os setores comuns, restaram apenas assentos VIP entre 1.750 e 12.500 euros - uma única partida que rendeu ao Barcelona 16,4 milhões de euros em receita, recorde do clube em um só jogo.
Programas como o teto de 30 euros da LaLiga para torcidas visitantes, ou o limite de 50 euros imposto pela Uefa na cota visitante da Liga dos Campeões, mostram que ainda existem brechas de acessibilidade - mas nem todos os clubes aderem a essas iniciativas, e os tetos não cobrem a maioria dos setores do estádio.
Premiações bilionárias elevam o patamar do futebol moderno
O dinheiro distribuído pelas competições também mudou de escala. A Uefa destinou cerca de 430 milhões de euros aos clubes da Liga dos Campeões em 2005-2006; hoje, somando a Supercopa da Europa, esse valor chega a 2,467 bilhões de euros. Apenas a classificação para a atual fase de liga garante 18,62 milhões de euros - quase 12 vezes o que um clube recebia pela fase de grupos duas décadas atrás. O título de 2006 rendeu ao Barcelona cerca de 31,5 milhões de euros; a campanha europeia do Paris Saint-Germain, segundo a comparação, já superou 140 milhões de euros em receitas da Uefa.
A Copa do Mundo seguiu o mesmo caminho: de 32 seleções e 64 jogos em 2006 para 48 seleções e 104 partidas em 2026. A Itália campeã recebeu cerca de 16 milhões de euros naquele ano; o vencedor da edição atual leva cerca de 44 milhões, além de uma garantia de 11 milhões só pela participação. O reflexo chega aos jogadores: a seleção espanhola acertou receber 45% do prêmio da Fifa em caso de título, o que daria a cada atleta cerca de 756 mil euros - ante os 540 mil euros que a Espanha receberia em 2006, mesmo caindo nas oitavas, e os 250 mil euros embolsados pelos campeões italianos daquele ano.